O Inventário
Um processo participativo de documentação, escuta e valorização do patrimônio cultural imaterial dos territórios afetados pelo desastre da mineração de sal-gema em Maceió.
Apresentação
Sobre o IPCI Maceió
O IPCI Maceió é um inventário participativo voltado ao reconhecimento, à documentação e à difusão das referências culturais imateriais de Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro, bairros atingidos pelo desastre decorrente da mineração de sal-gema em Maceió. Conduzido pela FUNDEPES/UFAL, o projeto atende às exigências do Acordo Socioambiental firmado entre o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado de Alagoas e a Braskem S.A., com anuência da Prefeitura de Maceió. Sua realização responde aos impactos do desastre tecnológico e ao risco de subsidência do solo, que resultaram na desocupação compulsória desses territórios a partir de determinações da Defesa Civil.
A pesquisa foi desenvolvida em um contexto marcado pela dispersão de moradores, fazedores de cultura, grupos e organizações, deslocados para diferentes bairros, municípios e localidades dentro e fora de Alagoas. O intervalo entre o início da desocupação compulsória, em 2019/2020, e a realização do Inventário, somado aos efeitos da pandemia de COVID-19, ampliou os desafios para localizar pessoas e coletivos, reconstruir redes de contato e compreender as transformações ocorridas na vida cultural desses territórios. A esse cenário somaram-se a ausência de dados atualizados e a desconfiança de parte das pessoas atingidas em relação a pesquisas vinculadas, direta ou indiretamente, à “poluidora-pagadora” — neste caso, a Braskem S.A. —, sobretudo em razão de experiências anteriores consideradas pouco transparentes por ex-moradores.
Diante desses desafios, o IPCI Maceió buscou construir a pesquisa com transparência e participação comunitária, a partir da escuta de moradores, ex-moradores, fazedores de cultura, grupos, organizações e agentes comunitários. Esse processo permitiu registrar memórias, práticas, saberes, celebrações, formas de expressão, lugares de referência e trajetórias culturais, reunindo-as em um acervo público que procura dar visibilidade à vida cultural dos bairros atingidos e às transformações provocadas pelo deslocamento compulsório, sem perder de vista os vínculos, as memórias e as práticas culturais que permaneceram ou foram reconstruídas em outros contextos.
O projeto
Patrimônio cultural imaterial e inventário: do que estamos falando?
Patrimônio cultural imaterial são os saberes, modos de fazer, celebrações, formas de expressão e outras práticas que grupos e comunidades reconhecem como parte de suas referências culturais. Ele está presente naquilo que as pessoas fazem, conhecem, celebram e transmitem, mas também nas relações que estabelecem entre si e com os lugares onde essas práticas ganham sentido.
Na perspectiva do patrimônio cultural, inventariar é um modo de conhecer e documentar essas referências. Mais do que elaborar uma lista de bens culturais, um inventário procura identificar quem são seus detentores, onde e como as práticas acontecem, quais memórias e significados estão associados a elas e quais condições favorecem ou dificultam sua continuidade.
Foi a partir dessa perspectiva que o IPCI Maceió investigou as referências culturais dos bairros atingidos, buscando compreender as relações entre cultura, memória, pessoas e território. O conhecimento produzido constitui um registro público dessas referências e oferece subsídios para sua difusão e para a construção de ações de salvaguarda.
Inventariar é reconhecer que o patrimônio cultural imaterial não está apenas nos objetos ou nos lugares físicos, mas nas práticas, nos vínculos, nos modos de fazer, nas festas, nas narrativas e nas pessoas que mantêm essas referências vivas.
Territórios atravessados pelo desastre
Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Pinheiro e Farol constituem o recorte territorial do IPCI Maceió.
A desocupação total ou parcial desses bairros modificou profundamente os espaços de convivência e as relações construídas ao longo do tempo. Casas, ruas, praças, igrejas, terreiros, escolas, espaços culturais, comércios, campos e margens da laguna não eram apenas espaços físicos: muitos deles constituíam lugares de encontro, trabalho, celebração, religiosidade, transmissão de conhecimentos e realização de práticas culturais.
Nesse contexto, compreender o patrimônio cultural imaterial exigiu considerar também as consequências do deslocamento compulsório. O Inventário buscou identificar como a ruptura das relações com esses territórios repercutiu sobre as referências culturais, registrando, no período da pesquisa, situações de permanência, interrupção, deslocamento e reconstrução das práticas em outros espaços.
Objetivo
Conhecer para reconhecer, difundir e salvaguardar
O IPCI Maceió teve como objetivo identificar, documentar e produzir conhecimento sobre as referências culturais imateriais dos bairros atingidos pelo desastre, a partir das indicações de ex-moradores e fazedores de cultura vinculados a esses territórios e dos significados por eles atribuídos a essas referências. A pesquisa buscou, assim, compreender os vínculos estabelecidos com práticas culturais, saberes, celebrações, formas de expressão e lugares de referência, considerando também seus detentores, memórias e formas de transmissão.
Inventariar, portanto, é também uma ação de salvaguarda. Ao tornar essas referências conhecidas e documentadas, o Inventário produz uma base de conhecimento que pode ser utilizada pelas comunidades, instituições e poder público e contribuir para outras ações articuladas de reconhecimento, valorização, difusão e continuidade do patrimônio cultural imaterial.
Reconhecer
Identificar as referências culturais e compreender os significados que lhes são atribuídos por seus detentores e comunidades.
Documentar
Registrar práticas, saberes, lugares de referência, detentores, grupos, organizações, memórias e outros dados produzidos pela pesquisa.
Difundir
Compartilhar o conhecimento produzido por meio do acervo digital, do mapa e de outros conteúdos públicos do IPCI Maceió.
Salvaguardar
Produzir subsídios e recomendações que possam orientar, em articulação com detentores, comunidades e instituições, ações voltadas à continuidade e ao fortalecimento das referências culturais.
Territórios
Os territórios do inventário
Acervo
O que você encontrará no acervo
O acervo do IPCI Maceió reúne e torna públicos os registros produzidos e as informações que foi possível identificar, acessar e documentar ao longo da pesquisa sobre as referências culturais de Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro. Ao navegar pelo site, o visitante encontrará informações sobre referências culturais, lugares, fazedores de cultura, grupos, organizações, memórias, documentos, cartografias e registros audiovisuais relacionados a esses territórios.
Esse conjunto não pretende esgotar a diversidade cultural dos bairros atingidos. A pesquisa foi realizada em um contexto marcado pela escassez de informações institucionais prévias e atualizadas sobre suas referências e seus fazedores de cultura, somada à dispersão de moradores, grupos e coletivos para diferentes localidades em decorrência do deslocamento compulsório. O acervo apresenta, portanto, os resultados do que pôde ser localizado, indicado, acessado e registrado durante o período da pesquisa de campo, especialmente a partir das ações de escuta comunitária realizadas entre junho de 2024 e setembro de 2025.
Tornar esses dados públicos e acessíveis integra o compromisso assumido pelo IPCI Maceió com a devolutiva à comunidade interessada e com a transparência do processo de pesquisa. Por isso, o site apresenta não apenas seus resultados, mas também o percurso que permitiu construí-los: objetivos, escolhas metodológicas, estratégias de investigação, articulações institucionais e formas de participação comunitária. Esse percurso permite compreender que os resultados apresentados — incluindo as recomendações de salvaguarda — foram construídos a partir de um amplo processo de escuta dos fazedores de cultura e demais participantes vinculados aos bairros atingidos. As informações sistematizadas procuram, assim, registrar seus modos de compreender as transformações vivenciadas, bem como suas percepções, demandas e expectativas, oferecendo subsídios para que comunidades e instituições possam refletir e construir ações futuras de salvaguarda.
Fontes bibliográficas e documentais
Reúne informações provenientes de fontes históricas, publicações, acervos, estudos, documentos técnicos e bases institucionais disponíveis e acessíveis durante a realização da pesquisa, que contribuíram para contextualizar os bairros atingidos e suas referências culturais.
Pessoas, grupos e comunidades culturais
Apresenta informações sobre fazedores de cultura, mestres, detentores de saberes, grupos, organizações e comunidades vinculados aos bairros atingidos que foi possível identificar e localizar durante a pesquisa, por meio de busca ativa e de indicações de moradores, ex-moradores, fazedores de cultura e lideranças comunitárias.
Referências culturai
Apresenta práticas, saberes, celebrações, formas de expressão e lugares de referência identificados a partir das indicações dos participantes da pesquisa e dos significados por eles atribuídos à vida cultural dos bairros atingidos
Memórias, trajetórias e relato
Reúne informações produzidas por meio de questionários, entrevistas e outras ações de escuta, registrando experiências, trajetórias, memórias, vínculos com os territórios e significados atribuídos às referências culturais pelos participantes da pesquisa.
Registros audiovisuais
Disponibiliza fotografias, vídeos e outros registros produzidos no âmbito do Inventário, ampliando as possibilidades de conhecer pessoas, práticas, lugares, memórias e narrativas relacionadas às referências culturais identificadas.
Cartografia social
Apresenta lugares, práticas e referências culturais indicados coletivamente pelos participantes da Cartografia Social, evidenciando relações construídas entre território, memória, sociabilidade e vida cultural.
Dados sistematizados
Articula as informações produzidas pelas diferentes etapas da pesquisa e as disponibiliza em formatos de consulta pública, permitindo estabelecer relações entre referências culturais, lugares, fazedores de cultura, grupos, organizações, documentos e registros audiovisuais.
Recomendações de salvaguarda
Sistematiza propostas decorrentes da escuta da comunidade cultural e dos resultados da pesquisa, expressando percepções, demandas e expectativas identificadas durante o Inventário. Essas recomendações oferecem subsídios para que comunidades, instituições e demais agentes envolvidos possam discutir e construir futuras ações de reconhecimento, valorização, continuidade e fortalecimento das referências culturais
Acervo público
Conhecimento produzido para ser compartilhado
Tornar públicos e acessíveis os conhecimentos produzidos pelo IPCI Maceió integra o compromisso de devolutiva assumido pela equipe de pesquisa com a comunidade cultural atingida. O site foi desenvolvido como um dos meios para ampliar o acesso aos resultados do Inventário, reunindo e apresentando, em diferentes formatos, informações produzidas e sistematizadas ao longo da investigação.
Moradores, ex-moradores, fazedores de cultura, pesquisadores, estudantes, gestores públicos e demais interessados podem explorar o acervo por diferentes caminhos, estabelecendo conexões entre territórios, referências culturais, lugares, pessoas, memórias, registros audiovisuais, cartografias e documentos produzidos ou consultados durante a pesquisa.
Mais do que disponibilizar resultados, o acesso público busca aproximar o conhecimento produzido das pessoas e comunidades às quais ele se refere. Dessa forma, o site constitui um espaço de consulta, memória pública e devolutiva, contribuindo para a difusão das referências culturais identificadas e para futuros processos de reconhecimento, reflexão e salvaguarda.
A memória continua em construção
Um acervo aberto a outras memórias e contribuições
O IPCI Maceió apresenta os resultados alcançados durante o período de realização da pesquisa, a partir das fontes disponíveis e acessíveis e das pessoas, grupos e referências culturais que foi possível identificar, localizar e documentar. Esses resultados, contudo, não pretendem esgotar as memórias, experiências e referências culturais de Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro.
A memória desses territórios é construída por diferentes pessoas, experiências e formas de narrar o vivido. Por isso, outras informações, documentos, registros e referências podem ampliar, complementar ou mesmo corrigir aspectos do conhecimento reunido pelo Inventário.
Nesse sentido, o site também constitui um espaço de participação, permitindo que moradores, ex-moradores, fazedores de cultura, grupos, pesquisadores e demais pessoas vinculadas aos bairros atingidos possam contribuir com informações, correções e complementações ao acervo. Assim, preserva-se o caráter público e participativo do Inventário e reconhece-se que a construção da memória coletiva ultrapassa os limites temporais da pesquisa.